O nascimento de Joicy

nascimentodevenus

O Nascimento de Vênus é uma pintura renascentista encomendada pela família Médici, a obra apresenta a deusa greco-romana emergindo do mar. Na mitologia, Vênus nasceu já adulta pela mistura do esperma de Uranus e a espuma do mar. Descontextualizando a famosa imagem da deusa que já nasceu adulta, é pertinente a comparação com uma transexual nordestina que decide fazer a operação de mudança de sexo, e assim, fazer nascer outra pessoa. É sobre essa relação de transsexualidade, nascimento, e jornalismo que se trata o livro-reportagem de Fabiana de Moraes: O Nascimento de Joicy.

Joicy era um ex-agricultor que nunca se sentiu confortável em seu corpo, mas que também, não queria alcançar o estereótipo da feminilidade. Joicy começava e terminava por ela mesma. A repórter encontrou ela na fila para a operação de mudança de sexo feita pelo SUS em uma cidade chamada Perpétuo do Socorro. Seus olhos se voltaram para Joicy porque diferente das outras ela não usava roupas apertadas ou muita maquiagem, ali a jornalista sentiu que deveria buscar mais sobre aquela personagem tão singular.

O livro é a reprodução da reportagem que foi veiculada no Jornal do Commercio em Recife, e ali você pode ver que simultaneamente quando Joicy nascia, já com o órgão referente ao seu corpo, Fabiana também passava por uma transição. A luta da repórter era uma batalha interna contra os limites do Jornalismo (estes sempre muito delineados) e até onde poderia ir envolvendo na vida de uma pessoa. Longe da visão limitada de contar os fatos, Fabiana consegue fazer um Jornalismo Literário emocional e que não apela para o sensacionalismo.

No interior do Nordeste ela acompanhou a luta diária por um tratamento digno. O respeito que a personagem tanto buscava virou uma necessidade para a autora, que estava lado a lado com a transfobia. No sertão Joicy era uma criatura, desumanizada e descaracterizada. As pessoas não se importavam com seu bem, mas nem desejavam seu mal, apesar de muitos não concordarem. Sua família virou as costas e seu único apoio é um relacionamento abusivo com um homem que não a assume. Joicy como em O Nascimento de Vênus, após nascer, foi circundada de pessoas que queriam tapar seu sexo.

A nordestina é uma criatura digna de Clarice Lispector. Sua dureza é explicada pelo tratamento que sofre cotidianamente, e que é presenciado por Fabiana. A psicóloga e o cirurgão não a levam a sério por ser tão masculina e ainda assim querer ter uma vagina; a mãe ainda chama ela de João; as irmãs não mantém muito contato ou por não concordarem, ou pelo marido delas não gostar. Naquelas páginas você consegue ver um ser que só quer o amor. Joicy só queria que a amassem como ela é,  por mais clichê que soe esse discursso.

Depois da reportagem, a obra da jornalista ainda apresenta o depois que a matéria foi ao ar e como isso impactou tanto a sua vida como de Joicy. Fabiana então precisa lidar com uma pessoa que agora lhe fazia chantagem emocional. A nordestina pela falta de amigos e de dinheiro recorria à autora com um apelo emocional de amiga. Quando Fabiana cortou isso, o companheirismo mudou.

Fabiana dá um show como jornalista nessa obra em que mostra o lado menos objetivo da comunicação. Aqui, ela quebra as amarras da formalidade e não involvimento que Truman Capote e Gay Taleese faziam para não reprimir a personagem. A pernambucana traz uma visão crítica tanto do tratamento aos transsexuais, como também apresenta o interior do Nordeste de forma colorida. Então como não retomar e fazer a análise esdrúxula do título da obra e aprofundá-lo mais que a analogia já existente. Joicy nasceu assim como Vênus, adulta, nua, de face inexpressiva.  E assim como o quadro permance no imaginário popular e é símbolo de beleza e feminilidade, quem pode dizer que Joicy não é? Pois muito além de uma resposta pronta, vem o confronto do que vem a ser feminilidade. E ali, alguém como Joicy, uma mulher que se sente como uma mulher, mas não alcança os estereótipos de maquiagem e saltos. Como aquilo não é o que diz ser?

Vênus nasceu. Joicy nasceu. Inicialmente com um nome que não lhe correspondia e com um órgão que não correspondia, Joicy existia e sempre existiu, mas para a ex-agricultora, seu nascimento seria depois de ter uma vagina. O livro não é só uma reportagem, é também uma prova de que é possível fazer um jornalismo literário subjetivo sem que perca o viés esclarecedor e iluminista da atividade. Fabiana não conta uma história, e sim se torna mediadora entre Joicy recém-nascida e a sociedade que vive há anos na ignorância.

 

O Nascimento de Joicy

Editora: Arquipélago

Autora: Fabiana Moraes

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s