O intra-venoso Tajo Abierto

FranciscaValenzuela-TajoAbierto

Ser sincero com a obra que faz é, talvez, o maior desafio de qualquer artista. Conseguir se expressar por meio do que faz, sem precisar necessariamente explicar. Deixar o trabalho gritar por si só. Cantores, pintores, dançarinos, atores, e outros milhares de profissionais tentam ao máximo chegar à esse “nirvana” de sua carreira, em que o que lançam fala por si só sem necessariamente uma explicação. Porém, a crudez nem sempre é sinal de algo agradável a todos os ouvidos, e excepcionalmente está associada ao comercial.

O terceiro disco da cantora Francisca Valenzuela vem com o prometido nome “Tajo Abierto”, que é uma expressão chilena para “sem barreiras, de corpo e alma”. Carregar um título tão significativo é ao mesmo tempo um pesar e uma inspiração para a ainda novata Francisca que tem 7 anos de carreira. O amadurecimente de seu primeiro disco para este é explícito, despindo-se dos ares infanto-juvenis a artista se mostra uma já mulher influente, tanto na música, como também na política e na cultura de seu país.

O que poderia ser um início significativo se torna uma redoma fora do “corpo” que Francisca quer transportar o ouvinte, “Prenderemos Fuego Al Cielo” (primeiro single do CD) é muito bem arquitetada instrumentalmente, mas sua letra deve em muito e acaba se tornando uma música dançante trabalhada com bons produtores. O conceito de apresentar um elemento mais sincero aqui já começa perdido pelo excesso de instrumentos. “No Esperen Mi Regreso”, segunda faixa da obra é consistente e seria um perfeito início, com saxofones, a música não fica excessiva e sim divertidamente irônica. Nesta canção Francisca indiretamente responde a algumas críticas, inclusive a muitos ouvintes chilenos que a criticam por ser americanizada ou por esperarem às vezes que a mesma seja uma super diva (por ser muito famosa).

“Perfume de Tu Piel” e “Siempre Eres Tú” apresentam uma solidificação no instrumental maturo que Tajo Abierto Carrega. Apesar da segunda possuir uma letra um pouco fraca e que foge da crudez, apresenta uma variedade instrumental que vai desde batidas eletrônicas à flauta doce. Francisca aqui deixou bem claro a influência da música latinoamericana em sua sonoridade, apesar de ter nascido nos Estados Unidos, passou toda sua vida no Chile. Em Perfume de Tu Piel ela apresenta uma letra tão profunda como “Crónica” (de seu segundo disco “Buen Soldado) mas com uma voz mais potente e ainda mais afiada.

Agora entramos em duas faixas de gosto duvidoso no disco, “Catedral” traz um instrumental bem produzido que flerta com a sonoridade de Florence + The Machine, mas a música não possui um êxtase ou minimamente uma sinceridade atrelada, apesar da letra forte. “Almost Superstars” poderia demonstrar tanto a influência dos Estados Unidos na vida de Francisca, como o projeto de construção do CD (que foi inteiramente produzido em terras norte-americanas), mas acabou se tornando um pop-rock fraco e que seria música descartada de qualquer disco de outra cantora.

Por sorte Francisca consegue segurar as pontas com a sessão de músicas boas e que conseguem levar o disco a um outro nível. “Estremecer” é, talvez, a música mais sexual já feito pela cantora que demonstra um amadurecimento e ao mesmo tempo um controle digno de ser considerada uma diva feminista no Chile. Sempre criando suas bases musicais e icônicas em mulheres fortes, Francisca representa uma geração de musicistas que não mais só cantam de amor, mas sim de sexo, e também sobre a própria vida (como fez Violeta Parra). Em “Armadura” (segundo single do álbum), a cantora monta um enorme hino ao próprio significado de Tajo Abierto, o instrumental eletropop leve não ofusca a letra e a voz doces e suaves da artista.

O coração do Tajo Abierto está na sequência de “Armadura” (já falada acima), Insulto e Cuequita de Corazón, que são definitivamente as melhores faixas do disco. Todas com um instrumental, uma mensagem e uma letra significativamente inteligente, Fracisca trabalha com metáforas, com citações importantes. Em “Insulto” ela decide tocar em um tema que toma os principais debates, as discussões sobre gêneros sexuais, baseando-se em um antigo livro sobre o tema: “Insult and the Making of the Gay Self”, a cantora expõe o que está por trás de todas as preferências e condições sexuais: o amor. Em “Cuequita del Corazón” chegamos a um outro nível, já perto do fim da obra intra-corporal vemos aqui o despir, a voz crua, o ritmo com instrumentos que representam a música latina – finalmente vemos Francisca 100% crua – infelizmente, em uma música de amor (infelizmente porque é clichê). E após o trio de músicas ótimas, o CD fecha com “Tajo Abierto” a música que dá nome ao álbum, não tão boa, mas que fecha de forma magistral a forma cardíaca que se percorre por todo Tajo Abierto.

A divulgação visual do álbum é impecável. Com um fundo cinza, várias fotos da cantora se misturam com zoom de partes de seu corpo, mostrando um trabalho (aparentemente) visceral e sincero. O encarte é belíssimo, quase uma obra de arte em forma de folhas de papeis e imagens, mas o CD peca pela estampa rosa bebê e a assinatura da cantora (esta deveria preferir algo mais minimalista).

Como já dito em outros posts, o terceiro disco de uma cantora é sempre decisivo, e Francisca soube muito bem o que fazer com seu estouro instantâneo. Foi ambiciosa o suficiente para apresentar simultaneamente um disco internacional suficiente para ser comercial e ao mesmo tempo digno de suas raízes. É visível o crescimento da chilena tanto em níveis musicais como de letra e até como de personalidade. Com entrevistas demonstrando opiniões fortes, a utilização de toda a atenção do público à ela tornaram um produto digno de orgulho do Chile. O problema fica mesmo com a sinceridade transmitida pela artista, que por (muitas) vezes parece uma marionete da indústria musical e não uma musicista que quer ser identificada pela sua arte duradoura.

Sua voz e suas letras as vezes gritam mais que o instrumental extremamente trabalhado e excessivamente desnecessário, que parecem buscar a todo o custo torná-la uma cantora mais hype do que ela realmente é. Por si só ela se basta, no palco Francisca comanda toda sua orquestra musical com seu carisma e autenticidade. Talvez o disco precisasse um pouco mais de sua honestidade, mais de sua diversão ou até de sua forma política de tratar de todos os assuntos. Ao invés de preencher o estoque de canções amorosas bobas, como uma terceira oportunidade musical claro que a atitude da cantora poderia ser bem diferente do que a que foi tomada. Mas em geral, Tajo Abierto não é um álbum ruim, e longe de ser mediano (como os dois anteriores da cantora). O disco coloca Francisca em outro nível, rompe a pele que a separava do público: vê-se aqui os mais puros órgãos de uma boa musicista que ainda precisa ser lapidada pela maturidade.

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